Presidente da Alemanha acusa EUA de enfraquecer a ordem mundial e cita Brasil como ator-chave para a estabilidade global

Presidente da Alemanha critica política externa dos EUA, alerta para risco à ordem mundial e cita o Brasil como ator-chave para a estabilidade global.

Escrito por: Thamires Souza

1/8/20266 min read

Presidentes da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, e dos Estados Unidos, Donald Trump. — Foto: REUTER
Presidentes da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, e dos Estados Unidos, Donald Trump. — Foto: REUTER

Presidentes da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, e dos Estados Unidos, Donald Trump. — Foto: REUTERS/Annegret Hilse/Jonathan Ernst

Frank-Walter Steinmeier critica política externa de Donald Trump e alerta para risco de um mundo regido pela força

O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, fez uma das mais duras críticas públicas já dirigidas aos Estados Unidos por um chefe de Estado europeu nos últimos anos ao afirmar que o governo norte-americano, sob a liderança de Donald Trump, está contribuindo para a destruição da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial.

Em discurso realizado na quarta-feira (7), durante um simpósio político na Alemanha, Steinmeier afirmou que o mundo corre o risco de se transformar em um “covil de ladrões”, no qual os países mais poderosos se apropriam de territórios, recursos e decisões globais sem respeito a regras, soberania ou instituições multilaterais.

A fala ocorre em um contexto internacional marcado por forte instabilidade geopolítica, intensificada por ações recentes dos Estados Unidos na América Latina, pela escalada de tensões com países europeus e por uma mudança significativa na postura de Washington em relação à cooperação internacional.

Críticas diretas à política externa dos Estados Unidos

Durante o discurso, Steinmeier afirmou que os Estados Unidos, tradicionalmente vistos como um dos principais arquitetos da ordem internacional baseada em regras, estariam agora atuando de forma contrária aos princípios que ajudaram a estabelecer.

“Hoje, há a quebra de valores por parte do nosso parceiro mais importante, os Estados Unidos, que ajudaram a construir essa ordem mundial”, afirmou o presidente alemão. Segundo ele, o cenário atual exige uma reação internacional coordenada para impedir que normas globais sejam substituídas pela lógica da força e do interesse imediato.

Steinmeier alertou que, sem mecanismos eficazes de contenção, regiões inteiras podem passar a ser tratadas como propriedade de grandes potências, minando a estabilidade política, econômica e democrática em diversas partes do mundo.

Discurso considerado incomum na política alemã

A manifestação pública chamou atenção também pelo papel institucional de Steinmeier. Na Alemanha, o presidente exerce funções majoritariamente representativas, enquanto a condução da política externa cabe ao chanceler, atualmente Friedrich Merz.

Por isso, a fala foi considerada incomum por analistas políticos, já que Steinmeier raramente se posiciona de forma tão direta sobre temas sensíveis da política internacional. A decisão de fazê-lo foi interpretada como um sinal da gravidade com que o governo alemão enxerga o atual momento global.

Foto: Hendrik Schmidt/EFE
Foto: Hendrik Schmidt/EFE

Frank-Walter Steinmeier - Foto: Hendrik Schmidt/EFE

Contexto: Venezuela, Groenlândia e ruptura diplomática

As declarações de Steinmeier ocorreram poucos dias após a deposição de Nicolás Maduro na Venezuela por meio de uma operação militar liderada pelos Estados Unidos. O episódio provocou forte repercussão internacional e reacendeu debates sobre soberania nacional, intervenções estrangeiras e o papel de Washington na América Latina.

Além disso, o discurso acontece em meio a uma escalada de tensões entre os Estados Unidos e a Europa relacionada à Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca. O presidente Donald Trump tem reiterado o interesse em incorporar a ilha ao território norte-americano, o que gerou desconforto diplomático entre aliados históricos e levantou preocupações dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Esses movimentos, segundo autoridades europeias, representam uma mudança profunda na forma como os Estados Unidos se relacionam com aliados e instituições multilaterais.

Brasil é citado como ator essencial para a ordem internacional

Um dos pontos mais relevantes do discurso de Steinmeier foi a menção direta ao Brasil como um país com potencial para desempenhar um papel decisivo na preservação da ordem mundial.

O presidente alemão afirmou que a democracia global está sendo atacada como nunca antes e que é necessária uma “intervenção internacional ativa em situações de ameaça”. Nesse contexto, ele destacou que países como Brasil e Índia precisam ser convencidos a assumir uma posição mais firme na defesa das regras internacionais.

A fala reflete uma percepção crescente entre líderes europeus de que a estabilidade global não pode mais depender exclusivamente das potências tradicionais do Ocidente, exigindo maior protagonismo de democracias emergentes.

Rupturas históricas e paralelos com conflitos recentes

Steinmeier traçou paralelos entre o momento atual e eventos que marcaram profundas rupturas na ordem internacional. Ele citou a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, e a invasão em larga escala da Ucrânia, como pontos de inflexão que abalaram os fundamentos da segurança europeia.

Segundo o presidente alemão, a postura recente dos Estados Unidos representa uma “segunda ruptura histórica”, desta vez protagonizada por um país que, até então, era visto como pilar do sistema multilateral.

Trump defende ingerência prolongada na Venezuela

Enquanto crescem as críticas internacionais, o presidente Donald Trump afirmou que os Estados Unidos devem continuar “administrando” a Venezuela por muitos anos. A declaração foi feita em entrevista ao jornal The New York Times, publicada nesta quinta-feira (8).

Segundo Trump, o governo interino venezuelano, liderado pela vice-presidente de Maduro, Delcy Rodríguez, estaria colaborando com Washington e fornecendo tudo o que o governo norte-americano considera necessário.

O presidente afirmou ainda que pretende reconstruir a Venezuela de forma “lucrativa”, utilizando o petróleo do país para reduzir preços internacionais e, ao mesmo tempo, gerar recursos financeiros para o próprio país sul-americano.

Retirada dos EUA de organismos internacionais

Outro fator que reforça a crítica de Steinmeier é a recente decisão do governo Trump de retirar os Estados Unidos de dezenas de organizações internacionais.

Na quarta-feira (7), a Casa Branca anunciou a saída do país de 35 organizações não vinculadas à ONU e de 31 entidades ligadas diretamente às Nações Unidas. Segundo o comunicado oficial, os organismos afetados “operam contrariamente aos interesses nacionais dos Estados Unidos”.

Entre as entidades citadas estão ONU Mulheres, a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a UNCTAD e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). O governo também já havia suspendido o apoio à Organização Mundial da Saúde (OMS), à UNRWA, ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e à UNESCO.

Impactos no multilateralismo e críticas de especialistas

Analistas internacionais avaliam que a postura do governo Trump representa uma mudança significativa na relação dos Estados Unidos com o sistema multilateral.

Para Daniel Forti, analista sênior da ONU no International Crisis Group, o que está em curso é a cristalização de uma abordagem baseada no princípio de “ou do meu jeito ou nada feito”.

Segundo ele, essa visão força instituições internacionais a se adaptarem rapidamente, muitas vezes por meio de cortes de pessoal e encerramento de programas, afetando diretamente projetos humanitários, ambientais e de desenvolvimento.

Consequências globais e cenário de incerteza

A combinação de intervenções militares, disputas territoriais, afastamento de organismos multilaterais e críticas públicas entre aliados tradicionais cria um cenário de incerteza crescente na política internacional.

As declarações de Steinmeier refletem o temor de que, sem um compromisso coletivo com regras comuns, o mundo caminhe para um sistema mais fragmentado, instável e propenso a conflitos.

Ao citar o Brasil como um dos países capazes de ajudar a proteger a ordem mundial, o presidente alemão sinaliza que o equilíbrio global dependerá cada vez mais da atuação conjunta de potências tradicionais e emergentes.

Um alerta que ultrapassa fronteiras

O discurso de Frank-Walter Steinmeier não foi apenas uma crítica pontual à política externa dos Estados Unidos, mas um alerta mais amplo sobre o futuro da governança global.

Em um momento em que instituições internacionais enfrentam questionamentos e a cooperação entre países se torna mais frágil, a fala do presidente alemão reforça a necessidade de diálogo, compromisso com normas comuns e responsabilidade coletiva para evitar que a ordem mundial seja substituída pela lógica do poder absoluto.

Sobre o autor
Thamires Souza é a criadora e editora do Mente de Curioso, um blog dedicado à divulgação de curiosidades, ciência, história e fatos explicados de forma clara, responsável e informativa.