ONU afirma que operação dos EUA para capturar Maduro violou princípio fundamental do direito internacional

ONU afirma que operação dos EUA para capturar Nicolás Maduro violou princípio fundamental do direito internacional e tornou o mundo mais inseguro.

Escrito por: Thamires Souza

1/6/20265 min read

Nicolás Maduro sendo levado para audiência em NY | Foto: Reprodução/ Reuters

Organização diz que uso da força contra a Venezuela tornou o mundo mais inseguro; Washington sustenta que prisão foi legal

A Organização das Nações Unidas afirmou nesta terça-feira (6) que a operação militar conduzida pelos Estados Unidos em Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, violou de forma clara um princípio fundamental do direito internacional. A declaração representa o posicionamento mais duro da ONU desde o início da crise e reforça a condenação internacional à ação norte-americana.

Segundo o órgão multilateral, o uso da força em território venezuelano contrariou regras centrais da Carta das Nações Unidas, tratado do qual os Estados Unidos são signatários e que orienta as relações entre Estados desde o pós-Segunda Guerra Mundial.

ONU cita violação direta da Carta das Nações Unidas

A avaliação foi apresentada por Ravina Shamdasani, porta-voz do Escritório de Direitos Humanos da ONU. Em declaração pública, ela destacou que a operação norte-americana afronta princípios básicos que regulam a convivência internacional.

“Os Estados não devem ameaçar nem usar a força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado”, afirmou Shamdasani.

A porta-voz fez referência direta ao Artigo 2º, parágrafo 4, da Carta da ONU, que proíbe o uso ou a ameaça de força contra a soberania de países, e ao parágrafo 7 do mesmo artigo, que estabelece o princípio da não intervenção em assuntos internos de outros Estados.

Posicionamento mais firme desde o início da crise

Até então, representantes da ONU vinham se limitando a expressar “profunda preocupação” e a pedir a desescalada da tensão entre Estados Unidos e Venezuela. A declaração desta terça-feira marca uma mudança significativa de tom, ao afirmar explicitamente que houve violação do direito internacional.

Especialistas em relações internacionais ouvidos por veículos internacionais apontam que a fala da ONU reforça a leitura predominante entre juristas de que a ação não encontra respaldo nas normas multilaterais vigentes.

Operação militar em Caracas

A declaração da ONU ocorre três dias após os Estados Unidos realizarem uma operação militar em Caracas, capital venezuelana, com o objetivo de capturar Nicolás Maduro. Segundo informações divulgadas pelo próprio governo norte-americano, a ofensiva envolveu a mobilização de cerca de 150 aeronaves, que realizaram explosões em pontos estratégicos da cidade para permitir o avanço de uma equipe de elite até o local onde o presidente venezuelano estaria escondido.

Maduro e sua esposa foram levados para os Estados Unidos, onde o presidente venezuelano passou a responder formalmente a acusações criminais.

EUA alegam legalidade da prisão

A Casa Branca justificou a ação como uma “operação para o cumprimento da lei”. Segundo Washington, a presença do Exército norte-americano na Venezuela teve como objetivo dar suporte ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos para executar um mandado de prisão contra Maduro.

O presidente venezuelano é acusado pelas autoridades americanas de crimes como:

  • Conspiração para o narcoterrorismo

  • Conspiração para o tráfico internacional de cocaína

  • Posse de metralhadoras e dispositivos explosivos

  • Conspiração para posse de armamento para uso do narcotráfico

O governo Trump sustenta que a prisão respeitou a Constituição dos Estados Unidos, classificando o caso como uma questão de segurança nacional. No entanto, não apresentou justificativas formais relacionadas ao cumprimento do direito internacional.

Nicolás Maduro a bordo do navio USS Iwo Jima, em foto compartilhada por Trump. — Foto: REUTERS

Legalidade ainda será contestada

Mesmo com a defesa feita pela Casa Branca, a legalidade da operação deve ser contestada nas próximas semanas, tanto dentro dos Estados Unidos quanto em fóruns internacionais. Juristas ressaltam que o cumprimento de leis nacionais não isenta um país do respeito às normas internacionais, especialmente quando a ação ocorre em território estrangeiro sem autorização multilateral.

Reação internacional e condenações

A captura de Maduro foi alvo de repúdio de diversos países. Durante uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU, aliados do governo venezuelano adotaram tom duro contra Washington.

A Rússia classificou a postura do governo Trump como “hipócrita e cínica”, enquanto a China acusou os Estados Unidos de praticarem “bullying” internacional. Outros países, incluindo o Brasil, também manifestaram condenação à operação durante sessões da ONU.

“O mundo ficou mais inseguro”, diz ONU

Ravina Shamdasani afirmou ainda que a intervenção norte-americana fragiliza a arquitetura da segurança internacional.

“A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela danifica a arquitetura da segurança internacional, porque envia a mensagem de que os poderosos podem fazer o que quiserem”, declarou.

Segundo a porta-voz, a comunidade internacional deve insistir no reconhecimento de que a ação representa uma contravenção às regras do direito internacional, sob risco de enfraquecer o sistema multilateral.

Situação judicial de Maduro

Nicolás Maduro compareceu nesta segunda-feira (5) a uma audiência diante de um juiz federal em Nova York e declarou-se inocente das acusações apresentadas pelo Departamento de Justiça dos EUA. No mesmo dia, o Conselho de Segurança da ONU voltou a se reunir para discutir os desdobramentos da operação militar.

Em resposta à captura, o governo venezuelano determinou que forças de segurança iniciem a busca e captura de pessoas acusadas de apoiar a ação norte-americana no país.

Cooperação e ameaças de nova ofensiva

Nos últimos dias, o governo dos Estados Unidos afirmou que não pretende realizar novos ataques contra a Venezuela, desde que as autoridades locais continuem colaborando. O presidente Donald Trump disse que não está em guerra com a Venezuela e afirmou que mantém contato com a presidente interina Delcy Rodríguez por meio do secretário de Estado Marco Rubio.

Trump, no entanto, afirmou que pode autorizar uma nova operação militar caso a cooperação seja interrompida.

Venezuela sob nova liderança

Após a deposição de Maduro, Delcy Rodríguez foi nomeada presidente interina da Venezuela por decisão do Tribunal Supremo de Justiça. As Forças Armadas venezuelanas reconheceram sua liderança e apoiaram a manutenção do cargo por um período inicial de 90 dias, conforme anunciado pelo ministro da Defesa, Vladimir Padrino.

Crise segue aberta

O episódio aprofunda a crise política, jurídica e diplomática envolvendo Venezuela, Estados Unidos e a comunidade internacional. Enquanto Washington defende a legalidade da prisão, a ONU e diversos países apontam violação clara do direito internacional. O desfecho do caso deve depender de decisões judiciais, negociações diplomáticas e da atuação de organismos multilaterais nos próximos meses.

Sobre o autor
Thamires Souza é a criadora e editora do Mente de Curioso, um blog dedicado à divulgação de curiosidades, ciência, história e fatos explicados de forma clara, responsável e informativa.