Trump afirma que apenas sua “própria moralidade” limita seu poder global, diz New York Times
Trump afirma ao New York Times que apenas sua própria moralidade limita seu poder global, reacendendo debates sobre direito internacional e diplomacia.
Escrito por: Thamires Souza
1/9/20265 min read


O presidente dos EUA, Donald Trump - 19 de novembro de 2025 (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)
Em meio a um cenário internacional marcado por tensões diplomáticas, conflitos geopolíticos e questionamentos sobre o alcance da autoridade presidencial dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump declarou que a única força capaz de limitar suas ações no plano global seria sua própria consciência moral. A afirmação foi feita em uma entrevista extensa concedida ao The New York Times, cujo conteúdo repercutiu amplamente após ser destacado pela ABC News.
As declarações chamaram atenção por sugerirem uma visão altamente personalista do exercício do poder presidencial, especialmente no que diz respeito ao respeito a normas e acordos internacionais. Em um momento em que decisões recentes do governo norte-americano geram reações dentro e fora dos Estados Unidos, a entrevista reacendeu debates sobre limites institucionais, direito internacional e responsabilidades globais da principal potência mundial.
“A única coisa que pode me deter é a minha própria moralidade”
Questionado diretamente sobre a existência de algum freio para o poder do presidente dos Estados Unidos no cenário internacional, Trump respondeu de forma categórica. Segundo a transcrição divulgada pelo New York Times, ele afirmou: “Sim, há uma coisa: a minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que pode me deter”.
A fala sugere que, na visão do presidente, decisões estratégicas de grande impacto global estariam submetidas primordialmente ao seu julgamento pessoal, e não a mecanismos externos de controle, como tratados multilaterais, cortes internacionais ou convenções diplomáticas tradicionais.
Embora o presidente tenha afirmado que não tem intenção de causar danos deliberados a outros povos, a forma como enquadrou o tema provocou reações imediatas entre analistas políticos, juristas e diplomatas, que veem no discurso um enfraquecimento simbólico da arquitetura internacional construída no pós-Segunda Guerra Mundial.
Relativização do direito internacional
Durante a mesma entrevista, Trump também abordou diretamente o papel do direito internacional em suas decisões. De acordo com o relato publicado, ele declarou que não se sente obrigado por essas normas, afirmando: “Eu não preciso do direito internacional. Eu não estou querendo machucar as pessoas”.
Em seguida, o presidente reconheceu que, em determinadas circunstâncias, seu governo pode acabar respeitando regras internacionais, mas relativizou esse compromisso ao questionar a própria definição do conceito. “Depende da sua definição de direito internacional”, afirmou.
Especialistas ouvidos por veículos internacionais destacam que esse tipo de posicionamento contrasta com a tradição diplomática norte-americana, que historicamente se apresenta como defensora da ordem internacional baseada em regras, ainda que com episódios frequentes de tensão e controvérsia.
Entrevista ocorre em meio a novas tensões externas
As declarações de Trump ocorrem em um contexto de elevada pressão internacional sobre o governo dos Estados Unidos. Nos últimos dias, ações atribuídas à administração norte-americana passaram a ser amplamente discutidas por governos estrangeiros, organizações multilaterais e analistas de política externa.
Entre os episódios que ampliaram o debate está uma operação militar conduzida por forças dos Estados Unidos em território venezuelano, que resultou na detenção do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa. As informações sobre o caso foram repercutidas por diferentes veículos internacionais, incluindo a agência Reuters.
Segundo os dados divulgados, Maduro e sua esposa enfrentam acusações federais nos Estados Unidos, incluindo conspiração para narcoterrorismo e conspiração para importação de cocaína. Ambos declararam inocência no início desta semana, conforme relatado pela imprensa.
Debate sobre soberania e legalidade internacional
A condução da operação em território estrangeiro reacendeu discussões sobre soberania nacional e os limites legais das ações militares extraterritoriais. Juristas e especialistas em relações internacionais apontam que operações desse tipo costumam gerar questionamentos em fóruns multilaterais e podem resultar em desgaste diplomático significativo.
Embora autoridades norte-americanas tenham reiterado que as ações seguem fundamentos legais internos, críticos destacam que o direito internacional prevê restrições claras à intervenção militar em países soberanos, salvo em situações específicas reconhecidas por organismos multilaterais.
Até o momento, não há confirmação pública de que a operação tenha sido autorizada por instâncias internacionais, como o Conselho de Segurança das Nações Unidas, o que mantém o tema em aberto no debate diplomático global.
Groenlândia volta ao centro das discussões estratégicas
Outro ponto destacado na reportagem do New York Times envolve discussões internas do governo Trump sobre a possibilidade de adquirir a Groenlândia. Segundo o jornal, assessores do presidente estariam avaliando “uma gama de opções”, incluindo cenários que envolveriam pressão política e até o uso de meios militares.
A informação teria sido confirmada pela secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, em declarações recentes. O território, que pertence ao Reino da Dinamarca, possui localização estratégica no Ártico e é considerado relevante do ponto de vista militar e econômico, especialmente em razão de rotas marítimas emergentes e recursos naturais.
Autoridades dinamarquesas já afirmaram, em ocasiões anteriores, que a Groenlândia não está à venda, e qualquer tentativa de aquisição forçada seria vista como violação de princípios básicos do direito internacional.
Relações com a OTAN e organismos multilaterais
A entrevista também reforça uma postura já conhecida do presidente em relação a organizações internacionais. Trump tem histórico de críticas à OTAN, alegando que os Estados Unidos assumem um peso financeiro desproporcional na aliança militar.
Além disso, durante seus mandatos, o presidente já defendeu o afastamento ou a redução do envolvimento norte-americano em organismos multilaterais, argumentando que essas instituições limitariam a soberania do país e sua capacidade de agir de forma independente.
Essas posições, segundo analistas internacionais, contribuem para um ambiente de incerteza quanto ao papel dos Estados Unidos como liderança global, especialmente em temas como segurança coletiva, mudanças climáticas e comércio internacional.
Repercussão política e diplomática
As falas de Trump repercutiram rapidamente em círculos políticos dentro e fora dos Estados Unidos. Parlamentares da oposição destacaram preocupações com a concentração excessiva de poder no Executivo e com a possibilidade de decisões unilaterais de grande impacto internacional.
No exterior, diplomatas e analistas veem as declarações como mais um sinal de afastamento do modelo tradicional de governança global baseado em regras compartilhadas. Ainda assim, até o momento, não houve anúncios oficiais de sanções ou medidas concretas em resposta direta às falas.
Especialistas ressaltam que, embora declarações tenham peso simbólico relevante, os Estados Unidos continuam submetidos a limites institucionais internos, como o Congresso, o Judiciário e pressões políticas domésticas.
Um debate que segue aberto
A entrevista ao New York Times expõe uma visão de poder presidencial que desafia conceitos clássicos de equilíbrio institucional e cooperação internacional. Ao afirmar que apenas sua própria moralidade o limita, Trump reacende discussões fundamentais sobre liderança global, responsabilidade estatal e o papel das normas internacionais em um mundo cada vez mais multipolar.
O impacto prático dessas declarações ainda dependerá das ações concretas do governo norte-americano nos próximos meses e da resposta da comunidade internacional diante de decisões que testem, na prática, os limites do poder dos Estados Unidos.
Sobre o autor
Thamires Souza é a criadora e editora do Mente de Curioso, um blog dedicado à divulgação de curiosidades, ciência, história e fatos explicados de forma clara, responsável e informativa.
