Protestos no Irã entram em fase crítica após crise econômica, repressão e bloqueio de internet
Protestos no Irã desde dezembro de 2025 expõem crise econômica, repressão violenta, mortes e bloqueio de internet, com reações internacionais.
Escrito por: Thamires Souza
1/11/20266 min read


Os protestos que varrem o Irã se aproximaram da marca de duas semanas no sábado - apnews
Desde o fim de dezembro de 2025, o Irã enfrenta uma das mais intensas ondas de protestos dos últimos anos. As manifestações, iniciadas em meio a uma grave crise econômica, rapidamente se espalharam por diversas regiões do país e se estenderam ao longo de janeiro de 2026, provocando uma resposta dura das autoridades iranianas, incluindo repressão policial, restrições severas à comunicação e acusações de interferência estrangeira.
O movimento ocorre em um contexto de forte deterioração das condições de vida da população, marcado por inflação elevada, desvalorização da moeda nacional e dificuldades crescentes para comerciantes e trabalhadores urbanos. Ao longo das semanas, os protestos passaram a incorporar também críticas mais amplas à condução política e à governança do país, segundo relatos de veículos internacionais e organizações de monitoramento.
Início das manifestações e contexto econômico
Os protestos começaram oficialmente em 28 de dezembro de 2025, quando comerciantes e moradores de grandes centros urbanos passaram a se reunir em vias públicas para denunciar o agravamento da crise econômica. A rápida perda de valor do rial iraniano, aliada à inflação persistente e ao aumento do custo de vida, foi apontada como o principal estopim das mobilizações iniciais.
Relatos publicados por veículos de imprensa indicam que, nos primeiros dias, os atos tinham caráter majoritariamente econômico, com reivindicações relacionadas ao preço de alimentos, aluguéis e insumos básicos. No entanto, à medida que as manifestações ganharam adesão em diferentes províncias, as pautas se ampliaram, refletindo um descontentamento social mais profundo.
Ao longo de janeiro de 2026, protestos foram registrados em dezenas de cidades, configurando o que analistas internacionais descrevem como uma das maiores ondas de contestação desde as mobilizações de 2022. A diversidade de participantes — incluindo comerciantes, estudantes e trabalhadores — reforçou a percepção de que a insatisfação ultrapassou grupos específicos da sociedade.
Expansão dos protestos e resposta das forças de segurança
Com a intensificação dos atos, as forças de segurança iranianas passaram a atuar de forma mais contundente. De acordo com reportagens de agências internacionais, confrontos entre manifestantes e agentes do Estado se tornaram frequentes, especialmente em áreas urbanas densamente povoadas.
Organizações de direitos humanos e veículos jornalísticos internacionais relataram dezenas a centenas de mortes, embora os números variem conforme a fonte. Até meados de janeiro de 2026, estimativas independentes apontavam mais de uma centena de vítimas fatais em meio aos confrontos, incluindo civis que participavam das manifestações.
Diversos relatos documentados mencionam o uso de munição real, detenções em massa e abordagens violentas durante a dispersão dos protestos. Há registros de jovens e adolescentes entre as vítimas, conforme informações reunidas por observadores independentes e reportagens internacionais. As autoridades iranianas, por sua vez, não divulgaram um balanço oficial consolidado de mortos e feridos.
Apagão de internet e restrições à comunicação
Em meio à escalada da crise, o governo iraniano adotou uma estratégia recorrente em momentos de instabilidade: a restrição severa ao acesso à internet e às comunicações móveis. Segundo relatos da imprensa, o país enfrentou um apagão quase total de internet, com interrupções prolongadas em serviços de dados e telefonia.
A medida, justificada oficialmente como necessária para preservar a ordem pública e a segurança nacional, teve como efeito direto a dificuldade de organização dos protestos e a limitação do fluxo de informações para o exterior. Jornalistas e organizações internacionais destacaram que o bloqueio dificultou a verificação independente de vídeos, relatos e números relacionados aos confrontos.
Especialistas apontam que a falta de conectividade contribui para as divergências nas contagens de vítimas e para a escassez de informações detalhadas sobre o que ocorre fora dos grandes centros urbanos. Mesmo assim, imagens e depoimentos continuaram a circular de forma intermitente por meio de redes privadas e canais alternativos.
Posição oficial do governo iraniano
O governo iraniano adotou uma postura firme diante das manifestações. Autoridades de alto escalão rejeitaram qualquer possibilidade de recuo e passaram a atribuir os protestos a interferência estrangeira, especialmente de países ocidentais.
O líder supremo do país, Ali Khamenei, afirmou em pronunciamentos que os atos seriam estimulados por forças externas interessadas em desestabilizar o Irã. Representantes do governo também enviaram comunicações diplomáticas acusando os Estados Unidos e Israel de incentivarem a violência e a desordem interna.
Segundo o discurso oficial, as forças de segurança estariam agindo para conter ações consideradas ilegais e preservar a estabilidade nacional. As autoridades iranianas não reconheceram publicamente abusos sistemáticos, embora tenham admitido confrontos e detenções em larga escala.


O presidente dos EUA, Donald Trump, fala à imprensa sobre o envio de agentes federais de aplicação da lei a Washington para reforçar a presença da polícia local, na Sala de Imprensa da Casa Branca, em Washington D.C., EUA, 11 de agosto de 2025. REUTERS/Annabelle Gordon
Reação internacional e posicionamento dos Estados Unidos
A escalada da violência e as restrições à comunicação provocaram reações de governos e organizações internacionais. Entre os pronunciamentos mais destacados estão declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que comentou publicamente a situação em diferentes ocasiões.
Trump expressou apoio aos manifestantes iranianos e criticou a repressão exercida pelo governo de Teerã. Em declarações divulgadas pela imprensa, ele afirmou que os Estados Unidos estariam “prontos para ajudar” caso a violência contra civis continuasse, embora não tenha detalhado quais medidas poderiam ser adotadas.
O tom das declarações gerou reações imediatas do governo iraniano, que classificou os comentários como ameaças e alertou contra qualquer tipo de intervenção externa. Analistas internacionais observam que esse embate retórico aumenta a tensão diplomática em um cenário já marcado por conflitos históricos entre os dois países.
Divergências nos números e dificuldade de verificação
Um dos principais desafios na cobertura dos protestos no Irã tem sido a confirmação precisa de dados relacionados a mortes, prisões e feridos. A combinação de repressão interna, censura à imprensa e bloqueio de internet dificulta o trabalho de jornalistas e observadores independentes.
Veículos internacionais, como agências de notícias e jornais de alcance global, ressaltam que as estimativas de vítimas variam justamente por conta dessas limitações. Enquanto grupos de direitos humanos apresentam números mais elevados, autoridades iranianas divulgam informações restritas ou parciais.
Esse cenário reforça a necessidade de cautela na divulgação de dados e a importância de se basear exclusivamente em informações confirmadas por fontes confiáveis, prática adotada por grande parte da imprensa internacional ao tratar do tema.
Comparação com protestos anteriores
Analistas políticos e especialistas em Oriente Médio têm comparado a atual onda de manifestações às mobilizações ocorridas em 2022, consideradas até então as mais significativas contra o regime iraniano nas últimas décadas. Em ambos os casos, fatores econômicos e sociais atuaram como catalisadores de um descontentamento mais amplo.
A diferença, segundo observadores, está na persistência e na extensão geográfica dos protestos atuais, que atingiram um número maior de cidades e setores da sociedade. Ainda assim, não há consenso sobre os desdobramentos políticos de médio e longo prazo.
Até o momento, não existem sinais concretos de mudanças estruturais ou concessões relevantes por parte do governo iraniano, que segue apostando no controle interno e no discurso de soberania nacional.
Situação atual e perspectivas
Até o final de janeiro de 2026, os protestos continuavam sendo registrados de forma esporádica, apesar das restrições severas impostas pelo Estado. A repressão, o bloqueio de comunicações e o aumento das tensões diplomáticas indicam um cenário de instabilidade prolongada.
Especialistas avaliam que a combinação de crise econômica persistente e repressão política tende a manter o clima de insatisfação social no país. No entanto, qualquer previsão sobre a evolução do movimento depende de fatores internos e externos, incluindo a capacidade do governo de conter os protestos e a resposta da comunidade internacional.
Por ora, o que está confirmado é que o Irã atravessa um momento delicado, marcado por manifestações de grande escala, resposta estatal dura e um ambiente informacional restrito, acompanhado de perto por governos e organizações ao redor do mundo.
Sobre o autor
Thamires Souza é a criadora e editora do Mente de Curioso, um blog dedicado à divulgação de curiosidades, ciência, história e fatos explicados de forma clara, responsável e informativa.
