Por que Caracas permaneceu em silêncio após a captura de Nicolás Maduro pelos EUA
Especialistas explicam por que a captura de Maduro pelos EUA não gerou comemorações nas ruas de Caracas, destacando medo da repressão e frustrações históricas.
Escrito por: Thamires Souza
1/7/20265 min read


Ruas de Caracas na segunda-feira (5/1) Foto: Reuters / BBC News Brasil
Medo da repressão e ceticismo político ajudam a explicar a ausência de celebrações na Venezuela após a queda do presidente
A captura do presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, após uma operação militar em território venezuelano, não produziu o cenário que muitos observadores internacionais esperavam. Em Caracas, não houve multidões nas ruas, nem manifestações espontâneas de comemoração. A rotina seguiu quase intacta, marcada por ruas vazias, comércio funcionando de forma contida e longas filas para aquisição de produtos básicos.
O contraste ficou evidente quando comparado às reações de venezuelanos no exterior, especialmente em países da América Latina, Europa e Estados Unidos, onde grupos de migrantes se reuniram para celebrar a prisão do líder que responsabilizam por anos de crise econômica, repressão política e êxodo em massa.
Segundo analistas ouvidos por veículos internacionais, a aparente calma na capital venezuelana não representa indiferença, mas sim o resultado de anos de repressão, frustrações políticas acumuladas e uma cultura de autopreservação.
A queda de Maduro e a continuidade do poder interno
Embora Maduro tenha sido capturado e retirado do país, o controle institucional na Venezuela não foi abruptamente rompido. A então vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu o comando do governo com respaldo do Judiciário, do Parlamento e, principalmente, das Forças Armadas.
Para grande parte da população, essa transição foi percebida como uma mudança de figura, e não como uma ruptura efetiva do sistema de poder que se consolidou ao longo de mais de duas décadas. A permanência das estruturas militares e de segurança reforçou a percepção de que o risco de repressão continuava presente — possivelmente ainda mais intenso.


Trump e sua cúpula, na entrevista de imprensa na sua residência em Mar-a-Lago, na Flórida, que muitos venezuelanos recordarão para sempre
Foto: Getty Images / BBC News Brasil
O peso do medo após anos de repressão
Especialistas em sociologia e direitos humanos afirmam que o comportamento contido da população é consequência direta de um medo estrutural desenvolvido ao longo dos últimos anos. Desde protestos anteriores, milhares de pessoas foram presas, perseguidas ou investigadas por expressarem opiniões políticas, inclusive em ambientes privados e redes sociais.
Após as eleições presidenciais de 2024 — cujo resultado foi amplamente contestado pela oposição — o aparato repressivo do Estado se fortaleceu. Denúncias de detenções arbitrárias, vigilância digital e presença ostensiva de forças de segurança tornaram-se frequentes.
Nesse contexto, manifestações públicas passaram a ser vistas como potencialmente perigosas, independentemente do conteúdo. Celebrar a queda de um presidente, mesmo impopular, poderia ser interpretado como ato político e resultar em represálias.
Prudência não é apatia
Pesquisadores ressaltam que o silêncio nas ruas não deve ser confundido com conformismo. Para muitos venezuelanos, a prudência se tornou uma estratégia de sobrevivência, aprendida após anos de experiências traumáticas.
Segundo essa leitura, a população internalizou a ideia de que expressar emoção política em público pode ter custos elevados, enquanto o silêncio oferece proteção mínima em um ambiente instável.
Esse comportamento é descrito como um “aprendizado social sob repressão”, no qual a autopreservação se sobrepõe à expressão coletiva, mesmo em momentos historicamente simbólicos.
Frustrações acumuladas e ceticismo político
Outro fator decisivo para a ausência de comemorações é o histórico de transições frustradas na Venezuela. Ao longo de 25 anos, diferentes episódios geraram expectativas de mudança — protestos massivos, eleições parlamentares vencidas pela oposição, referendos, crises internas e pressões internacionais.
Em todos esses momentos, a esperança inicial foi seguida por desilusão. Para muitos cidadãos, a experiência ensinou que mudanças aparentes nem sempre resultam em transformações reais.
A captura de Maduro, embora inédita, foi recebida com cautela. Parte da população prefere observar os desdobramentos antes de acreditar que uma transição efetiva esteja em curso.


A cúpula chavista venezuelana durante a posse de Delcy Rodríguez como nova mandatária do país na segunda-feira (5/1)
Foto: Getty Images / BBC News Brasil
A prioridade passou a ser sobreviver
A crise econômica prolongada moldou profundamente o comportamento social dos venezuelanos. Com salários corroídos, serviços públicos precários e insegurança alimentar recorrente, grande parte da população passou a concentrar energia no cotidiano imediato.
Filas para alimentos, água, medicamentos e combustível se tornaram parte da rotina. Nesse cenário, questões políticas, embora relevantes, são frequentemente subordinadas à necessidade de garantir o básico para o dia seguinte.
Especialistas apontam que essa “cultura da sobrevivência” reduziu o espaço para mobilizações espontâneas, especialmente quando associadas a riscos físicos ou legais.
A diferença entre quem ficou e quem partiu
A reação distinta entre venezuelanos dentro e fora do país também ajuda a explicar o contraste. Migrantes, distantes do alcance direto das forças de segurança venezuelanas, sentiram-se livres para celebrar publicamente.
Já os que permaneceram convivem diariamente com controle territorial, vigilância e incerteza, fatores que influenciam diretamente o comportamento coletivo.
Essa diferença não reflete visões opostas sobre Maduro, mas realidades completamente distintas.
Silêncio como mecanismo de defesa
Analistas afirmam que o silêncio observado em Caracas é, em grande medida, um mecanismo de defesa coletivo. Ao evitar manifestações públicas, a população reduz riscos imediatos enquanto aguarda sinais mais claros sobre o futuro político do país.
A expectativa, segundo especialistas, não desapareceu — apenas foi contida. Em vez de euforia, predomina um ceticismo racional, fruto de anos de promessas não cumpridas e mudanças interrompidas.
Um país em espera
A Venezuela vive, neste momento, um período de transição incerta. A captura de Maduro representa um evento histórico, mas seus efeitos concretos ainda são imprevisíveis.
Enquanto isso, Caracas segue em silêncio. Não por falta de opinião, mas por excesso de memória. Uma memória marcada por repressão, frustração e adaptação.
O silêncio, para muitos venezuelanos, não é ausência de sentimento — é proteção.
Sobre o autor
Thamires Souza é a criadora e editora do Mente de Curioso, um blog dedicado à divulgação de curiosidades, ciência, história e fatos explicados de forma clara, responsável e informativa.
