O dia em que um jornal chinês chamou o Exército Brasileiro de “falso, frouxo e vazio”
Portal chinês classificou o Exército Brasileiro de forma crítica, gerando debate sobre orçamento, preparo militar e a imagem do Brasil no cenário internacional.
Escrito por: Thamires Souza
1/13/20264 min read


Exército brasileiro ficou mais desmoralizado após passagem de Bolsonaro pelo poder (Imagem: Marcos Correa)
Em um episódio que gerou repercussão internacional e intenso debate no Brasil, uma publicação de grande circulação na China classificou o Exército Brasileiro com termos extremamente críticos, descrevendo-o como o “mais falso, frouxo e vazio do mundo”. A análise, divulgada em 2023, chamou atenção não apenas pelo tom duro, mas pelas discussões que provocou sobre investimentos, prioridades e a imagem das Forças Armadas brasileiras no cenário global.
O conteúdo circulou amplamente em fóruns, redes sociais e análises especializadas, reacendendo questionamentos antigos sobre o papel militar do Brasil, sua estratégia de defesa e o modelo adotado pelo país ao longo das últimas décadas.
A origem da crítica e o contexto da publicação
O texto foi publicado pelo Sohu.com, um dos maiores portais de informação da China, conhecido por análises geopolíticas voltadas ao público interno. O artigo avaliou o desempenho militar de diferentes países e incluiu o Brasil como exemplo de uma nação com baixa capacidade operacional, segundo a interpretação dos autores chineses.
A publicação argumentou que o Brasil mantém um grande efetivo militar, mas com estrutura considerada pouco eficiente do ponto de vista de combate e modernização. O foco principal da crítica esteve na forma como os recursos financeiros são distribuídos dentro do setor de defesa.
Orçamento militar e distribuição de recursos
Um dos pontos centrais do artigo foi a análise do orçamento das Forças Armadas brasileiras. Segundo a avaliação apresentada, apenas uma parcela reduzida dos recursos seria destinada à aquisição de armamentos, equipamentos e tecnologias militares.
A publicação destacou que, enquanto em diversos países uma fatia significativa do orçamento militar é investida em modernização e capacidade operacional, no Brasil a maior parte dos recursos estaria concentrada em despesas administrativas, salários, aposentadorias e pensões de militares da ativa e da reserva.
Essa estrutura, segundo o texto chinês, comprometeria a capacidade de resposta das Forças Armadas em cenários de conflito de alta intensidade e limitaria o avanço tecnológico do setor.
Questionamentos sobre preparo e eficácia militar
A partir da análise orçamentária, o artigo passou a questionar a eficácia prática do Exército Brasileiro em situações de guerra convencional. O texto sugeriu que a baixa prioridade dada à modernização de equipamentos e treinamentos avançados resultaria em uma força numerosa, porém com capacidade limitada de atuação em conflitos modernos.
Os autores também apontaram que o Brasil não possui histórico recente de envolvimento em guerras internacionais de grande escala, o que, na visão do portal, teria contribuído para uma postura menos voltada à preparação bélica.
Essa interpretação gerou reações divergentes, com especialistas brasileiros destacando que o papel das Forças Armadas do país vai além do combate convencional, incluindo missões de paz, apoio humanitário, proteção de fronteiras e atuação em desastres naturais.
Referências históricas e percepções externas
O artigo chinês recorreu ainda a referências históricas para ilustrar percepções estrangeiras sobre o Exército Brasileiro. Entre elas, foi mencionada uma frase atribuída a Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial, que ironizava a suposta incapacidade militar brasileira.
Embora essa frase tenha sido posteriormente ressignificada pelos próprios militares brasileiros — especialmente pela Força Expedicionária Brasileira —, a publicação utilizou o episódio como exemplo de como o Brasil foi historicamente visto por observadores externos no campo militar.
A abordagem gerou críticas de analistas que consideraram o uso desse tipo de referência histórica simplista e descontextualizada.
Fatores geográficos e estratégicos do Brasil
Outro ponto abordado foi a posição geográfica do Brasil. Cercado por países com os quais mantém relações diplomáticas estáveis e sem conflitos armados recentes, o país não enfrenta ameaças militares diretas em suas fronteiras.
Segundo o artigo, essa condição teria influenciado a opção brasileira por uma política de defesa menos agressiva e com menor foco em poder de dissuasão militar. O texto também sugeriu que a influência histórica dos Estados Unidos na política de segurança regional teria contribuído para essa configuração.
Especialistas brasileiros, no entanto, ressaltam que a dimensão territorial do Brasil, a proteção da Amazônia e a segurança das fronteiras terrestres e marítimas exigem uma estratégia própria, que nem sempre se baseia em parâmetros adotados por potências militares tradicionais.
Perfil pacífico e papel internacional
Apesar das críticas severas, o artigo chinês reconheceu que o perfil pacífico das Forças Armadas brasileiras é visto, em parte, como um fator de estabilidade internacional. A publicação afirmou que o Brasil não adota uma política de exportação de conflitos, nem busca protagonismo militar fora de suas fronteiras.
Essa postura, segundo o texto, contribui para uma imagem de país voltado à diplomacia, cooperação internacional e resolução pacífica de disputas. Ao mesmo tempo, levanta questionamentos sobre até que ponto essa estratégia fortalece ou enfraquece a posição do Brasil em um mundo cada vez mais marcado por disputas geopolíticas.
Repercussão e debate no Brasil
A divulgação da análise provocou debates no Brasil entre militares, especialistas em defesa e a sociedade civil. Para alguns, a crítica estrangeira evidencia a necessidade de revisar o modelo de financiamento das Forças Armadas e ampliar investimentos em tecnologia e treinamento.
Para outros, o artigo ignora deliberadamente o contexto histórico, social e político brasileiro, além de desconsiderar o papel multifuncional desempenhado pelas Forças Armadas no país.
O episódio também reacendeu discussões sobre transparência orçamentária, prioridades nacionais e a imagem internacional do Brasil no campo da defesa.
Conclusão
O texto publicado pelo portal chinês marcou um momento raro em que o Exército Brasileiro foi alvo de críticas diretas e contundentes em um grande veículo internacional. Mais do que os termos utilizados, o episódio expôs um debate mais amplo sobre qual deve ser o papel das Forças Armadas brasileiras no século XXI.
Entre uma postura pacífica e a pressão por maior capacidade militar, o Brasil segue diante do desafio de equilibrar sua tradição diplomática com as exigências de um cenário global cada vez mais instável.
Sobre o autor
Thamires Souza é a criadora e editora do Mente de Curioso, um blog dedicado à divulgação de curiosidades, ciência, história e fatos explicados de forma clara, responsável e informativa.
