Em Davos, Trump descarta uso da força na Groenlândia, mas insiste em negociar aquisição do território
Em Davos, Trump descarta uso da força na Groenlândia, mas insiste em negociar a aquisição do território, ampliando crise diplomática com aliados europeus.
Escrito por: Thamires Souza
1/21/20265 min read


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faz um pronunciamento durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça — Foto: FABRICE COFFRINI / AFP
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quarta-feira (21), durante participação no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que não pretende usar força militar para obter o controle da Groenlândia. Apesar disso, o líder americano voltou a defender abertamente a aquisição do território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca, classificando a ilha como um ponto de interesse estratégico essencial para a segurança nacional dos Estados Unidos.
As declarações ocorrem em meio a uma crise diplomática em escalada entre Washington e seus aliados europeus, marcada por ameaças tarifárias, divergências sobre soberania territorial e questionamentos sobre o futuro das relações transatlânticas.
A fala de Trump em Davos
Ao discursar para líderes políticos, empresariais e financeiros reunidos nos Alpes suíços, Trump afirmou que chegou a considerar deixar a Groenlândia fora de sua fala, mas decidiu abordar o tema diante da repercussão internacional. Em tom descontraído em alguns momentos, que provocou risos na plateia, o presidente declarou ter “respeito pelo povo da Groenlândia e da Dinamarca”, mas ressaltou que, na sua avaliação, os aliados da Otan precisam ser capazes de garantir a própria defesa.
Segundo Trump, nenhuma nação ou grupo de países estaria atualmente em condições de assegurar a segurança da Groenlândia, exceto os Estados Unidos. O presidente classificou a ilha como um ponto central para a estabilidade no Ártico e reiterou que o interesse americano não estaria relacionado à exploração de recursos minerais, mas sim a questões de segurança estratégica.
Argumento histórico e críticas à Dinamarca
Trump voltou a recorrer a argumentos históricos para justificar sua posição. Ele afirmou que, durante a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha ocupou a Dinamarca e que os Estados Unidos assumiram a defesa da Groenlândia naquele período, devolvendo o território posteriormente.
O presidente criticou essa decisão, classificando-a como um erro histórico, e descreveu a Dinamarca como “ingrata” pela postura atual diante das propostas americanas. Na sequência, reforçou que considera a Groenlândia parte natural do espaço estratégico da América do Norte.
Uso da força descartado
Apesar da retórica firme, Trump afirmou de maneira explícita que não pretende recorrer ao uso da força para alcançar seus objetivos. O presidente reconheceu que os Estados Unidos teriam capacidade militar para impor sua vontade, mas declarou que não considera essa alternativa necessária nem desejável.
Segundo ele, a aquisição da Groenlândia seria buscada por meio de negociações, que descreveu como “imediatas”. Trump afirmou que a ideia de empregar poder militar gerou temores entre aliados, mas garantiu que essa possibilidade está descartada.
Impacto na Otan e preocupação entre aliados
As declarações sobre a Groenlândia têm provocado preocupação entre países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Líderes europeus alertam que a insistência americana em adquirir um território de um aliado pode enfraquecer a coesão da aliança militar e gerar precedentes delicados para a estabilidade internacional.
Trump, por sua vez, afirmou que uma eventual administração americana da Groenlândia não representaria ameaça à Otan, mas sim um reforço à segurança coletiva. Para ele, o controle dos Estados Unidos ampliaria a proteção do território e, por consequência, da própria aliança.
Críticas a aliados e discurso mais amplo
Durante o discurso, Trump também criticou outros parceiros tradicionais. O presidente atacou o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, reagindo a declarações recentes do líder canadense sobre uma “ruptura” no cenário internacional. Trump afirmou que o Canadá depende historicamente dos Estados Unidos e que isso deveria ser levado em conta nas declarações de seus líderes.
O republicano declarou ainda que mantém profundo apreço pela Europa e pelos laços históricos e culturais entre os dois lados do Atlântico, mas afirmou que o continente estaria seguindo um caminho equivocado em temas como imigração, energia e crescimento econômico. Segundo ele, os países europeus precisam “fazer sua parte” para que o Ocidente permaneça forte e unido.
Política interna dos Estados Unidos
Como já era esperado, Trump dedicou parte significativa de sua fala à política doméstica. O presidente celebrou o que classificou como um primeiro ano de governo bem-sucedido em seu segundo mandato, citando crescimento econômico, valorização dos mercados financeiros e melhora nos planos de aposentadoria.
Ele afirmou que a inflação estaria sob controle e que medidas duras contra a imigração irregular teriam reforçado a segurança interna. Dados oficiais recentes, no entanto, indicam que a inflação anual permanece acima da meta estabelecida pelas autoridades monetárias.
Trump também defendeu o aumento de tarifas sobre produtos estrangeiros como forma de compensar o que considera prejuízos históricos aos Estados Unidos. Especialistas, porém, apontam que tarifas são pagas por importadores e consumidores americanos, o que pode gerar efeitos inflacionários internos.
Chegada atrasada e agenda afetada
Trump chegou a Davos com atraso após um problema técnico em sua aeronave, o que exigiu a troca do avião presidencial por uma aeronave menor. O contratempo levou ao cancelamento de uma reunião bilateral prevista com o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, mas não alterou a participação do presidente no fórum.
Apesar do atraso, Trump manteve uma agenda intensa, com encontros com líderes estrangeiros e empresários, em um momento em que suas declarações já haviam dominado o debate internacional antes mesmo do início oficial do evento.
Reações europeias
Autoridades europeias reagiram com cautela e firmeza às falas do presidente americano. Lideranças da União Europeia afirmaram que o mundo atravessa uma mudança profunda na ordem internacional e defenderam o fortalecimento da autonomia estratégica do bloco.
Dirigentes europeus rejeitaram a justificativa de segurança para ameaças tarifárias relacionadas à Groenlândia e alertaram que medidas coercitivas podem minar as relações transatlânticas. Representantes do bloco afirmaram que a Europa prefere o diálogo, mas está preparada para responder caso seja necessário.
O que está confirmado
– Donald Trump descartou publicamente o uso da força para obter a Groenlândia
– O presidente reafirmou o interesse dos EUA em negociar a aquisição do território
– A Groenlândia foi tratada por Trump como prioridade estratégica de segurança
– As declarações ocorrem em meio a uma crise diplomática com aliados europeus
– Líderes da União Europeia reagiram com críticas e alertas sobre soberania e coerção
O que permanece em aberto
– Se haverá negociações formais entre Estados Unidos e Dinamarca
– Qual será a resposta concreta da União Europeia às ameaças comerciais
– Os impactos de longo prazo dessas declarações sobre a coesão da Otan
Por que o tema é relevante
A insistência de Trump na Groenlândia evidencia uma mudança no discurso geopolítico americano, com maior ênfase em interesses territoriais, segurança estratégica e pressão econômica sobre aliados. O episódio coloca em debate princípios como soberania nacional, alianças históricas e os limites da diplomacia no século XXI.
A forma como Estados Unidos, Europa e Dinamarca conduzirão esse impasse pode redefinir o equilíbrio das relações transatlânticas em um momento de instabilidade global crescente.
Sobre o autor
Thamires Souza é a criadora e editora do Mente de Curioso, um blog dedicado à divulgação de curiosidades, ciência, história e fatos explicados de forma clara, responsável e informativa.
