Churrascarias e restaurantes japoneses entram na mira por suspeitas de trabalho análogo à escravidão em São Paulo
Entenda por que denúncias de trabalho análogo à escravidão em restaurantes cresceram e como fiscalizações encontram alojamentos precários e informalidade.
Escrito por: Thamires Souza
1/7/20266 min read


Vinícius Mendes/BBC - Além das condições degradantes encontradas, fiscais dizem que alojamentos prendem as pessoas.
Fiscalizações identificam alojamentos precários, informalidade e jornadas excessivas em estabelecimentos urbanos
Denúncias de trabalho em condições análogas à escravidão, tradicionalmente associadas a áreas rurais, vêm ganhando espaço em um cenário inesperado: restaurantes urbanos, especialmente churrascarias e casas de rodízio de comida japonesa. Fiscalizações recentes em São Paulo revelaram um padrão preocupante envolvendo alojamentos superlotados, condições degradantes de moradia, irregularidades trabalhistas e dependência direta do empregador para alimentação e abrigo.
O tema ganhou repercussão após investigações conduzidas por órgãos públicos em conjunto com reportagens jornalísticas que acompanharam operações em estabelecimentos localizados em regiões centrais e de grande circulação da capital paulista. Segundo autoridades, a exploração do trabalho pode assumir formas menos visíveis nos centros urbanos, camuflada sob relações aparentemente formais.
Como a legislação brasileira define trabalho análogo à escravidão
No Brasil, o conceito de trabalho análogo à escravidão não se limita à privação física de liberdade. Ele engloba situações em que trabalhadores são submetidos a condições degradantes, jornadas exaustivas, trabalho forçado ou mecanismos que restringem sua autonomia, como dependência econômica extrema ou controle indireto da vida cotidiana.
A caracterização ocorre quando essas práticas violam a dignidade humana e colocam em risco a saúde, a segurança ou a integridade do trabalhador. Em fiscalizações recentes no setor de restaurantes, a categoria mais frequentemente identificada tem sido a de condições degradantes, especialmente relacionadas à moradia oferecida pelos empregadores.


Vinícius Mendes/BBC - Imóvel de cerca de 80 m² tinha 12 trabalhadores, entre garçons e passadores.
O papel dos alojamentos nas denúncias
Um dos elementos centrais das investigações é o uso de alojamentos fornecidos pelos próprios restaurantes. Embora a oferta de moradia ao empregado não seja ilegal, esses espaços precisam cumprir requisitos mínimos de higiene, segurança e conforto.
Nas ações realizadas em São Paulo, fiscais relataram imóveis com excesso de pessoas por cômodo, camas improvisadas, banheiros sem condições adequadas, ventilação insuficiente e riscos elétricos. Em alguns casos, cozinhas e áreas comuns foram convertidas em dormitórios, comprometendo completamente a salubridade do ambiente.
Além das condições físicas, autoridades apontam que a moradia atrelada ao emprego pode criar uma relação de dependência, dificultando que o trabalhador deixe o posto mesmo diante de abusos, já que sair do trabalho pode significar perder também o local para dormir e se alimentar.
Jornadas fragmentadas e dependência do empregador
Churrascarias e rodízios operam com picos intensos de movimento no almoço e no jantar. Esse modelo costuma gerar escalas fragmentadas, com longos intervalos durante a tarde e retorno ao trabalho à noite. Embora essa organização possa ser legal quando respeita a legislação, fiscalizações indicam que, na prática, muitos trabalhadores acabam permanecendo à disposição do empregador durante quase todo o dia.
Quando combinada com moradia no próprio entorno do restaurante, essa dinâmica reduz a autonomia do funcionário, que passa a ter sua rotina completamente condicionada ao trabalho. Em relatos colhidos durante inspeções, trabalhadores afirmaram que pedidos extras, convocações fora do horário e pressão para permanecer no serviço eram comuns, especialmente em dias de grande movimento.


Vinícius Mendes/BBC - Situação do banheiro de um do alojamento de churrascaria em SP impressionou agentes do MTE.
Informalidade e promessas não cumpridas
Outro ponto recorrente nas denúncias é a falta de registro em carteira, muitas vezes justificada pelos empregadores como “período de experiência”. A legislação trabalhista, no entanto, exige que o vínculo seja formalizado desde o início da atividade, independentemente da fase de teste.
Em alguns casos, trabalhadores relataram ter viajado de outros estados após promessas de salário, moradia e benefícios, apenas para se depararem com condições diferentes das anunciadas. A combinação de informalidade, atraso ou não pagamento de salários e dependência do alojamento agrava a vulnerabilidade e contribui para a caracterização das irregularidades.
O que acontece quando uma fiscalização confirma irregularidades
Quando auditores identificam indícios de trabalho análogo à escravidão, é adotado um conjunto de medidas imediatas para cessar a violação. Isso pode incluir a retirada dos trabalhadores do local, encaminhamento para hospedagem provisória, cálculo de verbas trabalhistas devidas e abertura de procedimentos administrativos e judiciais.
As ações costumam envolver uma força-tarefa formada por auditores do trabalho, procuradores do Ministério Público do Trabalho e, em algumas situações, apoio policial. Dependendo do caso, os empregadores podem ser autuados, firmar termos de ajuste de conduta ou responder a ações civis públicas.


Vinícius Mendes/BBC - Fiscalização encontrou trabalhadores dormindo sobre caixotes de cerveja improvisados como camas.
Por que nem todos os casos aparecem imediatamente em cadastros públicos
A inclusão de empresas no cadastro público de empregadores flagrados com trabalho análogo à escravidão ocorre apenas após a conclusão de processos administrativos, garantindo direito de defesa. Por isso, operações recentes ou investigações em andamento podem não constar imediatamente nessas listas.
Autoridades ressaltam que a ausência momentânea em cadastros não significa inexistência de irregularidades, mas sim que o caso ainda está em fase de apuração ou julgamento.
A vulnerabilidade como fator-chave
Especialistas destacam que a exploração do trabalho está diretamente ligada à vulnerabilidade social. Muitos dos trabalhadores resgatados são migrantes internos, vindos de regiões com menos oportunidades econômicas, que chegam às grandes cidades sem rede de apoio.
A promessa de moradia e alimentação funciona como atrativo, mas também como mecanismo de controle. O medo de perder o emprego e não ter para onde ir faz com que muitos aceitem condições que não aceitariam em outras circunstâncias, retardando denúncias.


Vinícius Mendes/BBC - Passadores levam facas usadas para cortar carne dos clientes para o alojamento.
Impacto para o setor e para a sociedade
As denúncias envolvendo restaurantes chamam atenção não apenas pelo aspecto legal, mas pelo impacto reputacional em um setor ligado ao lazer e ao consumo. Elas também ampliam o debate sobre responsabilidade social, fiscalização urbana e a necessidade de mecanismos eficazes de proteção ao trabalhador.
Para especialistas, o aumento dos casos identificados não indica necessariamente que a prática se tornou mais comum, mas que mais situações estão vindo à tona graças à ampliação da fiscalização e da conscientização dos trabalhadores sobre seus direitos.
Um problema urbano que exige atenção contínua
Os casos investigados mostram que o trabalho análogo à escravidão não é um resquício distante do passado nem um fenômeno restrito ao campo. Ele pode existir em ambientes urbanos, próximos ao cotidiano de milhares de pessoas, muitas vezes invisível aos clientes que frequentam esses estabelecimentos.
O enfrentamento do problema passa por fiscalização contínua, canais seguros de denúncia, responsabilização conforme a lei e informação clara à sociedade. Só assim será possível romper ciclos de exploração que se adaptam às novas realidades econômicas.


Vinícius Mendes/BBC - Colados uns aos outros e próximos às janelas, beliches impedem passagem de ar e dificulta limpeza.
Sobre o autor
Thamires Souza é a criadora e editora do Mente de Curioso, um blog dedicado à divulgação de curiosidades, ciência, história e fatos explicados de forma clara, responsável e informativa.
