Brasil apreende mais de 440 kg de ouro ilegal em 2025; Roraima concentra quase metade do total
Brasil apreende 447 kg de ouro ilegal em 2025; Roraima lidera operações e concentra quase metade do total, segundo a Polícia Federal.
Thamires Souza
12/22/20253 min read


Apreensão de barras de ouro soma 104 kg em Boa Vista — Foto: Caíque Rodrigues/g1 RR
O Brasil apreendeu 447,09 quilos de ouro ilegal em 2025, entre janeiro e o início de dezembro, segundo dados consolidados da Polícia Federal (PF). O volume representa um salto expressivo em relação a 2024, quando foram apreendidos 100,7 kg, e evidencia o avanço das ações de fiscalização sobre o garimpo ilegal e as rotas de escoamento do minério.
O estado de Roraima lidera as apreensões, com 213,69 kg, o equivalente a mais de 47% de todo o ouro ilegal apreendido no país neste ano. A maioria das ocorrências se concentra na Amazônia Legal, região historicamente associada à mineração irregular.
Apreensão recorde e distribuição por estados
A maior apreensão de ouro da história da Polícia Rodoviária Federal (PRF) ocorreu em agosto, em Boa Vista (RR), quando 103 kg de ouro foram interceptados durante uma abordagem. O material foi avaliado em R$ 61 milhões, e o empresário flagrado com a carga foi condenado a 8 anos e 11 meses de prisão.
Além de Roraima, os estados com maiores volumes apreendidos em 2025 foram:
Amazonas: 73,71 kg
São Paulo: 46,74 kg
Pará: 40,28 kg
Rondônia: 6,95 kg
Somados, os estados da Amazônia Legal responderam por mais de 345 kg do total apreendido no país.
Crescimento de 344% em relação a 2024
O volume de ouro ilegal apreendido em 2025 é quase quatro vezes maior do que o registrado no ano anterior — um crescimento de 344%, de acordo com a PF.
As autoridades atribuem o aumento principalmente a dois fatores:
reforço das operações de fiscalização, sobretudo em rodovias estratégicas;
mudanças legais no controle da comercialização do ouro, que reduziram brechas usadas para “esquentar” minério de origem ilegal.
Roraima como rota de escoamento
Segundo a PF, Roraima passou a ser usada como rota de escoamento do ouro ilegal extraído em outras áreas da Amazônia, aproveitando-se da localização estratégica na fronteira com a Venezuela e a Guiana, países onde a comercialização do ouro é permitida.
Em entrevista ao g1, o delegado da PF em Roraima explicou que boa parte do ouro apreendido no estado não teve origem local, mas foi transportada até a região para posterior venda no exterior.
As investigações indicam o uso recorrente de rodovias federais, como:
a BR-401, que leva a Bonfim, na fronteira com a Guiana;
a BR-174, que liga Roraima à Venezuela.
De acordo com a PF, os criminosos frequentemente simulam viagens em família e escondem barras de ouro em compartimentos ocultos de veículos para tentar burlar as fiscalizações.
Garimpo ilegal ainda persiste
Apesar do foco recente no escoamento, autoridades e pesquisadores alertam que o garimpo ilegal não foi erradicado em Roraima. O Ministério Público Federal destaca que ainda existem áreas ativas, inclusive próximas à Terra Indígena Yanomami, embora as ações de retirada de garimpeiros tenham reduzido significativamente novos focos.
Pesquisadores apontam que o estado integra, há décadas, redes estruturadas de mineração ilegal, com atuação que envolve transporte aéreo, fluvial e terrestre, além de conexões transfronteiriças.


imagem: gov.br
Mudanças legais e fim da “boa-fé”
Um ponto central para o aumento das apreensões foi a suspensão da chamada “presunção de boa-fé” no comércio de ouro, determinada em 2023 pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A decisão obrigou o governo federal a criar regras mais rígidas para o setor. Em resposta, foi editada uma medida provisória que:
extinguiu a presunção de boa-fé baseada apenas em declarações do vendedor;
passou a exigir nota fiscal eletrônica;
ampliou os mecanismos de rastreabilidade.
Um projeto de lei para criar um marco regulatório permanente ainda tramita na Câmara dos Deputados.
Destino do ouro apreendido
Todo o ouro recolhido pelas forças de segurança é encaminhado à PF, que centraliza a custódia e as investigações. O material segue para o Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, onde passa por análises do projeto Ouro Alvo.
A iniciativa busca identificar o chamado “DNA do ouro”, permitindo rastrear a região exata de extração e confirmar se o minério veio de garimpos ilegais ou de terras indígenas, fortalecendo as investigações criminais.
Um problema estrutural na Amazônia
Especialistas avaliam que o avanço das apreensões revela um problema crônico e estrutural, ligado a redes ilegais consolidadas na Amazônia há décadas. A combinação entre riqueza mineral, fronteiras internacionais e fragilidade histórica da fiscalização criou um ambiente propício ao crime organizado.
Embora os números indiquem avanço do Estado no combate ao ouro ilegal, pesquisadores alertam que o desafio permanece, exigindo políticas contínuas de fiscalização, regulação e desenvolvimento sustentável para a região.
